Sou só o cara deitado na calçada tomando chuva, pra sempre...

:: INCONSISTÊNCIA ::

Então me deu uma vontade imensa de fazer algum comentário inteligente sobre o fagote, ou de levantar da cadeira durante os arpejos da flauta doce e gritar Polainas ao homem do lado. A mim pouco importava o fato de que a flauta doce não é um instrumento de cordas ou de que eu estava (o tempo todo) de costas para o palco, contanto que o meu comentário fosse perspicaz, refinado, com gosto de cimentcola, tão arguto que o pessoal da fileira da frente colocaria as mãos na barriga por puro deleite. E bateria na pança com a palma das mãos, top top. Então me deu vontade de mascar chiclete e soprar pra cima -- dois ou três de tutti-fruti, soprar até perder o fôlego -- até que eu desistisse de exaustão ou estourasse a bola, impressionando enormemente o homem do lado. Nota: sincronizadamente ao cataplash dos címbalos seria um requisito apreciado, mas não obrigatório. Então me deu vontade de me coçar inteira: coçar a parte de trás da perna, as bordas, o joelho, o ossinho do calcanhar, tirar os sapatos e chegar até a planta do pé, depois dizer que "é dos nervos". Então me deu vontade de estar vestida de arlequim, o olho esquerdo pintado e um chapéu com guizos nas pontas; estar vestida com uma blusa de babados ou uma gola bufante. Então me deu vontade de andar pelos corredores vendendo albatroz, lado a lado com o homem (do lado) que pediria a minha opinião sobre o escândalo do caixa-dois e a evasão de divisas nacionais para a Bolívia, assuntos sobre os quais eu dissertaria utilizando-me de correta flexão do infinitivo verbal (ou gírias escocesas). Mas a platéia inteira já teria saído a essa altura e o homem do lado estaria me esperando passar

para poder apagar a luz

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